14 de mar. de 2014

DESDITA

Os olhos que miram as fontes,
deitam as sombras,
embalam os ventos...
Mas não fecham as portas dos horizontes.
São meus olhos,
o teu olhar,
que percebe o inaudito
mesmo que eu não tenha dito,
que meus caminhos não têm pontes.

A palavra que a experiência conta
nem sempre é inédita,
mas é toda polida...
Sempre sai de uma história pronta.
São meus sonhos,
o teu pesadelo,
que edifica uma dúvida nítida
em minha espera bendita,
num destino que nada afronta.


12 de mar. de 2014

NOVIÇA

Quando era verdadeira a esperança que vinha do sonho
A idade não tinha pautas, datas ou escolhas
Eram manhãs madrugadeiras
Que batiam na porta do sol
Pedindo alguns raios
Um brilho para dança...
Então os pássaros traziam orquestras de sonatas

Dividia-se o riso com a distância sem existir pranto
Os esconderijos estavam na alma
As mãos afagavam as nuvens
Sem perfurar o céu
Cobrindo o universo de traços
Rebuscados pela infância...
Porque foi embora, saiu de cima da flor

Vestiu-se de torpe indumentária o humano que vive
Numa insistência sem fim
Para enganar toda a dor
Quão imensas são as estrelas
Quando se conhece metade do caminho!
Com a ferramenta necessária...
Para sondar os sonhos vagabundos.

Malogro este arfar de querer justiça com amor
Os pés não pisam um chão em guerra
Nem as mãos esmigalham ilusões
Que juntam as finitudes
Sempre que se alcança o devaneio
Numa tarde noviça...
E então, acorda-se para esperar.


FLOR AZUL


O azul me toca,
Quando, de surpresa
Me gruda no céu.

No céu o azul me invoca,
E me diz de Céu
Todo pobre viveu.

Ai que pobre rica sou,
Se todo esse azul fosse meu!
Se céu fosse flor
E se a flor fosse eu!

O azul me choca
Quando, na madrugada
Me afoga no orvalho.

No orvalho o azul me olha
E me diz que no orvalho
Todo boêmio morreu.

Ai que ingênua sou
Pensando em mim e não em Deus!
Se Deus fosse azul
A flor não seria eu.

Então o azul
Que toca o céu
Leva na flor o orvalho
Como um boêmio
E o entrega a Deus.







11 de mar. de 2014

QUEM GOVERNA TEM FOME

A fome é uma aberração que não cabe na escrita, não pertence e nenhum editorial, mas fica estampada mais nos olhos que na barriga.
            A fonte é o faminto, a dor é a constatação.
            Fui tomada de surpresa ao passar por um contêiner de lixo, quando me pareceu ter visto algo de filmes de ficção científica, que em minha opinião, quem escreve estes filmes é visionário dentro de uma lógica. Algo sempre dá certo.
            Havia uma pessoa com metade do corpo dentro do contêiner alimentando-se literalmente, ali com certeza não era alimento fresquinho, mas ele comia.
Ali ele digeria o casco duro dos impostos, aquilo que sobra do que pagamos aos que são mais experientes no furto.
Ele, o mendigo, não desembolsa um vintém, e alimenta-se de graça, sem horário, sem gravata...
Nunca soube o que se passa na cabeça de um verdugo, quando fazia a guilhotina cair no pescoço de um desgraçado, mas sinto o que vai na minha. Sinto-me um verdugo a decapitar minhas forças, toda vez que não grito e peço socorro aos que têm fome.
            Se a ‘bendita’ inquisição calou aos que tinham uma palavra certa, uma mão de caridade, uma erva de cura...Então malditos hoje, os que dela não fazem mais uso!
            Quantas fogueiras teríamos que fazer! Não haveria mais florestas, e há muito nosso planeta seria cinzas, tal a imaginação fértil de nossos grandes homens que sobem ao topo para nos guiar.
Ora, pobres, pedintes, dirão, sempre houve, sempre haverá. Ora, homens de pouca ética, pouco amor próprio, foram os primeiros a ficar à margem de si mesmos. Como guiar um cego se o que enxerga não encontra o próprio caminho?
Os que ‘enxergam’, não veem além de suas mesas, depois de fartos, as sobras vão para os que sobram, e estes são feitos da mesma matéria, só lhes falta o que o poder retém, a caridade. Esta, uma sutil sabedoria que está na memória de toda humanidade, conhecida de todos os povos, dita e descrita de várias maneiras, que quer dizer tão somente ‘amai o próximo como ti mesmo’, Cristo a pronunciou desta forma segundo a Bíblia (Novo Testamento).
Então, eu soube que alimentar-se num contêiner não é pior do que ser cego, ou mutilado em sua consciência, porque estes jamais estarão alimentados, e na verdade, só os que governam têm fome. Seria esta a explicação para a humanidade que se degrada dia após dia?


10 de mar. de 2014

DESCRENÇA


Enquanto a vida passa calada,
sobre ou sob o tempo incansável,
é provável que o homem faça sua escalada
numa jornada de tolhimentos.
Leva o vento em sua jangada,
filosofias e saudades ficam isentos,
e n’alma uma esperança pendurada

Agora que o Universo está criado,
o caos não interpreta o incógnito.
De sua janela há um olhar agasalhado,
que ora à Terra como um evento,
como se o homem vivesse abnegado
esperando seu próprio invento
orientando-se por um cajado.

Amanhã será um novo dia
com um tema já decorado,
pois sem o homem não há euforia.
De sua vontade surge toda idéia,
mesmo que não seja sua a  cria,
seu futuro será uma odisséia
porque é assim toda demagogia.

O mistério não tem presença,
assim como o amor.
Amar esquecido, é ofensa.
A vida não gera algozes,
nem humildade é doença.
Os caminhos são atrozes.
Vendemos a fé, e compramos a crença.


7 de mar. de 2014

UM AMANHÃ


O ‘amanhã’ pouco se importa
Nem ao coração
Perdoa a decepção
Nem supre a falta de piedade
Quando a súplica bate à porta

E se o amor entende de sonho
Completa a ilusão
Com a paz faz fusão
E sempre ao tempo me entrego
Se a janela fecha não me oponho

Quando morrer num verso fraco
Ao relento de um perdão
Vou tocar a vida com a mão
Sem abandonar meu teto estrelado
Porque viver não é pouco, é um trato